Entre o “L” e o palco: cultura, dinheiro público e apoio a Lula
Na política brasileira, o palco também virou palanque. De um lado, artistas que declaram apoio a Lula e participam de campanhas com o “L” feito com os dedos. De outro, cantores e personalidades que se aproximam de Flávio Bolsonaro e de setores conservadores. No meio dessa disputa, surge uma pergunta que merece reflexão: qual é a relação entre o financiamento público da cultura, as convicções políticas dos artistas e o direito de o contribuinte questionar como o dinheiro é utilizado?
Nomes conhecidos da música e da televisão já participaram de manifestações favoráveis a Lula, entre eles Caetano Veloso, Gilberto Gil, Chico Buarque e Daniela Mercury.

No campo conservador, artistas como Amado Batista manifestaram apoio a Flávio Bolsonaro. Cada um tem o direito de escolher seu candidato, defender suas ideias e participar do debate público. O problema começa quando o prestígio artístico é usado para tentar encerrar discussões que deveriam permanecer abertas à crítica.
A Lei Rouanet entra nessa conversa porque movimenta recursos por meio de um mecanismo de incentivo fiscal. Em 2025, projetos culturais captaram aproximadamente 3,41 bilhões de reais pelo programa. Entre os projetos associados a nomes conhecidos estão produções como Tom Jobim Musical, Gal, O Musical e Elis, A Musical, com captações milionárias. Também existem registros históricos de projetos relacionados a artistas como Diogo Nogueira, Fafá de Belém, Martinho da Vila e Jorge Aragão.
Se um artista defende determinado governo, é legítimo perguntar qual é sua posição sobre os critérios de distribuição dos incentivos culturais, a transparência dos gastos, a fiscalização dos projetos e a prestação de contas.
A disputa presidencial de 2026 mobiliza artistas, cantores, atores e personalidades das redes sociais. As manifestações públicas mostram maior participação de nomes do meio artístico em ações favoráveis ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do PT, enquanto Flávio Bolsonaro, do PL, reúne apoios pontuais de artistas ligados principalmente ao sertanejo e a setores conservadores.
Quais artistas manifestaram apoio a Lula?
Entre os nomes que participaram de campanhas, publicações ou manifestações públicas favoráveis a Lula estão:
- Música: Caetano Veloso, Gilberto Gil, Chico Buarque, Maria Bethânia, Ivete Sangalo, Xamã, Paulinho da Viola, Daniela Mercury, Alceu Valença, João Bosco, Djavan, Simone e Ivan Lins.
- Atores, atrizes e outras personalidades: Alessandra Negrini, Renata Sorrah, Gloria Pires, Malu Mader, Sophie Charlotte, Eduardo Moscovis, Marjorie Estiano, Ingrid Guimarães e Fernanda Gentil.

Os registros incluem a campanha musical “Bora, Lula”, divulgada em setembro e outubro, e atos públicos realizados no Rio de Janeiro e em outras cidades. Nem todos os nomes participaram das mesmas iniciativas, e a presença em um evento deve ser diferenciada de uma declaração individual de voto.
Quais artistas manifestaram apoio a Flávio Bolsonaro?
Entre as manifestações públicas identificadas nas reportagens estão:
- Amado Batista: declarou apoio a Flávio e recebeu o candidato em sua propriedade, em Goiás.
- Penélope Nova: publicou registro ao lado do senador e manifestou apoio político.
- Regina Duarte: publicou uma imagem fazendo o número 22 com as mãos, em referência à candidatura de Flávio.
- Leonardo: fez uma manifestação ao enviar um cumprimento a Flávio em um vídeo divulgado nas redes sociais.
- Zezé di Camargo: manifestou apoio ao ex-presidente Jair Bolsonaro em um vídeo divulgado por Flávio.
Lei Rouanet: quais valores aparecem vinculados a artistas?
Lista de valores identificados em projetos culturais
A tabela abaixo reúne exemplos de projetos registrados no relatório de gestão de 2025 do Ministério da Cultura, com valores captados informados pelo órgão. Os números se referem aos projetos, não à remuneração individual dos artistas.
| Projeto cultural | Valor captado |
| Tom Jobim Musical | R$ 7.850.000,00 |
| Vital – O Musical dos Paralamas | R$ 6.342.000,00 |
| Gal, O Musical | R$ 4.306.833,00 |
| Elis, A Musical | R$ 3.270.000,00 |
| Gil, O Musical | R$ 414.573,62 |
Fonte: relatório de gestão de 2025 do Ministério da Cultura, com dados do Versalic consultados em fevereiro de 2026. Os títulos homenageiam ou estão associados aos artistas citados, mas os valores correspondem à captação dos respectivos projetos.
Outros artistas citados em projetos incentivados
A plataforma Rastro Brasil também organiza dados históricos de projetos que mencionam artistas em seus títulos ou descrições. No recorte histórico consultado, aparecem os seguintes valores agregados de captação:
| Nome citado em projetos | Valor agregado dos projetos |
| Diogo Nogueira | R$ 9 milhões |
| Fafá de Belém | R$ 6,9 milhões |
| Renato Borghetti | R$ 6,5 milhões |
| Martinho da Vila | R$ 5,2 milhões |
| Jorge Aragão | R$ 5 milhões |
| Mônica Salmaso | R$ 2,8 milhões |
| Gal Costa | R$ 2,3 milhões |
Fonte: plataforma Rastro Brasil, consulta histórica de projetos culturais. Os montantes são agregados de projetos associados aos nomes, não valores comprovadamente pagos pessoalmente aos artistas.
Quanto a Lei Rouanet movimentou em 2025?
Segundo levantamento do Ministério da Cultura publicado pela Folha de S.Paulo em janeiro de 2026, os projetos culturais captaram aproximadamente R$ 3,41 bilhões por meio da Lei Rouanet em 2025. O resultado representou aumento de 12,1% em relação a 2024, quando a captação foi de R$ 3,04 bilhões. Os números correspondem ao conjunto dos projetos incentivados no país, e não apenas a artistas conhecidos ou a produções musicais.








